Alegria. Folia. Festa. Emoção. Euforia. Loucura. Êxtase. Foram estas as palavras mais usadas para descrever o Cortejo deste ano e correspondem, sem dúvida, àquilo a que a Baixa do Porto assistiu durante a tarde e noite de Terça-feira. Cerca de 90 mil estudantes universitários invadiram as ruas da cidade portuense, mostrando-se aos familiares, amigos ou simplesmente curiosos que quiseram assistir ao tradicional desfile de alunos de todas as faculdades, escolas superiores e institutos. Do caloiro ao finalista, todos fizeram questão de entrar na festa e nem o calor abrasador, nem o atraso, tiraram ânimo aos estudantes. Naquele que é o expoente máximo da tradição académica portuense, os universitários “pintaram” as ruas da Invicta das mais variadas cores, preencheram-nas com movimento, animação, gritos e emoção.
Libânia Raquel, caloira da Universidade Lusófona, afirma: “O Cortejo já faz parte da cidade do Porto. É o dia em que todos os estudantes da academia se mostram aos portuenses. É bonito sentir o ambiente que se vive neste dia, ver as manchas de cores das faculdades, constatar o empenho dos estudantes. Para mim, é a tradição académica com mais significado!”. Os estudantes reuniram-se, como tem sido hábito, na Rua Dão Manuel II, por volta das 14h30. O calor era intenso e o cortejo tardava a arrancar mas nada fez esmorecer os universitários que ensaiavam já os cânticos das suas faculdades, num despique saudável. “Allez Ciências Allez”, “Engenharia! Engenharia!”, “É Letras quem manda aqui!” eram alguns dos gritos que se iam distinguindo no emaranhado de ritmos e letras. Paula Ferreira, caloira da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, considera que estas “guerras de cânticos” são totalmente saudáveis: “Cada um tem que defender a sua casa com unhas e dentes claro! Um dos sentimentos que o espírito académico nos traz é o amor incondicional pela nossa faculdade e a vontade de a defender e gritar por ela até que a voz nos doa, como diz a canção! Além disso, os cânticos são muitas vezes manifestações de criatividade por parte dos estudantes.”.
Como habitual, Medicina do São João encabeçou o Cortejo, seguida de Ciências, Engenharia, Letras, Farmácia e muitas outras. Pouco passava das 15h30 quando os veteranos da Academia deram os primeiros passos rumo à Rua da Restauração. Começou então um desfile de cores, cânticos, barulho, emoções, cartolas e bengalas de todas as cores, capas negras, carros alegóricos com diferentes feitios e decorações, caloiros, flashes, vinho do Porto e muito mais. Da Restauração, o Cortejo seguiu lentamente pela Cordoaria e Clérigos e terminou em apoteose na Avenida dos Aliados, onde muitas eram já as pessoas que esperavam e desesperavam para assistir à passagem dos universitários. Só às 17h30 os primeiros estudantes de Medicina passaram a tribuna, onde se encontravam, como vem sendo hábito, figuras ilustres da cidade: o Presidente da Câmara, Rui Rio, o Reitor da Universidade do Porto, Marques dos Santos, entre outros. O Cortejo prolongou-se até perto das duas da manhã, mas nem por isso o ânimo dos universitários diminuiu. Em cada passagem da tribuna, sucediam-se os abraços, as bengaladas, as lágrimas, as fotografias em grupo e em família e os gritos “Já não sou caloiro!” e “Fi-fi-finalistas!”. Para os primeiros, é só a etapa inicial que chega ao fim; têm ainda pela frente alguns anos de vida académica. Para os segundos, fecham-se as portas da faculdade; abrem-se as do mercado de trabalho.
Elsa Silva, caloira de Jornalismo e Ciências da Comunicação, expressa a sua emoção: “É um turbilhão de sentimentos: alegria, saudade, nostalgia. É avassalador! O ano de caloira teve alguns contratempos mas também imensos momentos bons. Passar a tribuna significa deixar um ano para trás, um ano muito importante e que significou muito. Agora só penso que tenho que aproveitar os anos que ainda me restam na faculdade!”
Por sua vez, Marta Mesquita, finalista da Escola Superior de Enfermagem do Porto “Ana Guedes”, visivelmente emocionada, expressa o orgulho que sente por estar a acabar o curso que sempre quis tirar e por estar prestes a exercer a profissão que sempre desejou, mas ao mesmo tempo, não deixa de sentir uma certa nostalgia por a “boa vida” estar a chegar ao fim. “Sinto um misto de tristeza e alegria. Cheguei ao fim da meta. Custou muito passar a tribuna pela última vez. Grandes momentos ficam para trás. Mas a vida é mesmo assim: tudo o que é bom acaba depressa. Apesar de tudo, acredito que ainda tenho grandes momentos para viver!”.
Também Conceição Ribeiro, cuja filha é finalista no ISEP, tem as lágrimas nos olhos ao falar da satisfação que sente por ver a filha a acabar o curso: “Foram quatro anos de sacrifício mas valeu a pena. É uma grande alegria e um grande orgulho para uma mãe ver uma filha de cartola e bengala!”.
Apesar da natural tristeza que muitos sentiam por deixarem para trás os tempos académicos, o clima era de festa. Afinal de contas, ainda tinham pela frente uma noite no Queimódromo ao som de Quim Barreiros e Fernando Pereira!
Ana Tulha

